Congelamento de óvulos: quando a ciência se afasta da dignidade humana

Introdução: o progresso que promete liberdade

A medicina reprodutiva avançou de maneira impressionante nas últimas décadas. Entre as técnicas modernas, o congelamento de óvulos é amplamente divulgado como uma solução para mulheres que desejam “postergar a maternidade”. A promessa parece simples: conquiste seus sonhos profissionais agora, e deixe para ter filhos quando for conveniente. Parece liberdade, mas talvez seja uma armadilha: não só biológica, mas existencial.

A mulher, ensinada desde cedo a desconfiar de sua própria fertilidade, passa a considerar sua natureza como um obstáculo. Ao invés de ser educada a valorizar sua capacidade de gerar vida, é constantemente instruída a contê-la, adiá-la, silenciá-la. O que deveria ser acolhido como dom, passa a ser visto como fardo.

A verdade biológica: fertilidade tem prazo de validade

A natureza do corpo feminino é sábia: a fertilidade tem seu auge na juventude e diminui com o passar dos anos. Isso não é um defeito, mas um dado da realidade biológica, que convida a mulher a viver sua vocação no tempo oportuno. Congelar óvulos é, em essência, uma tentativa de suspender essa realidade natural. Mas mesmo os avanços tecnológicos não anulam os riscos e as limitações: a taxa de sucesso de uma gravidez com óvulos congelados ainda é baixa, e o procedimento exige múltiplas etapas invasivas, como a hiperestimulação hormonal.

A mulher foi criada com um ritmo próprio, com uma harmonia entre corpo, alma e ciclos. Ao contrariar essa harmonia, ela se desconecta de si mesma. E por mais que o discurso moderno tente convencê-la de que pode “ter tudo na hora que quiser”, o relógio biológico e a linguagem do corpo continuam a transmitir suas verdadeiras mensagens.

O congelamento de óvulos é um procedimento neutro?

Mesmo quando o congelamento de óvulos acontece sem intercorrências graves, ele não é algo simples nem leve para o corpo da mulher. Trata-se de um processo médico que exige tempo, intervenção hormonal e um certo desgaste físico e emocional. Na prática, a mulher passa por semanas de uso de hormônios, com injeções diárias para estimular os ovários a produzirem vários óvulos ao mesmo tempo. Durante esse período, são necessários ultrassons frequentes e exames de sangue, o que já gera ansiedade e impacto na rotina.

Depois vem a punção ovariana, um procedimento invasivo, realizado sob sedação, no qual os óvulos são aspirados diretamente dos ovários. Em muitos casos, um único ciclo não é suficiente, e a mulher precisa repetir todo o processo mais de uma vez para tentar congelar uma quantidade considerada “adequada” de óvulos (CEDARS et al., 2020).

Artigos de revisão científica descrevem detalhadamente essas etapas: estimulação ovariana, coleta e vitrificação, e são claros ao afirmar que, apesar dos avanços técnicos, o congelamento de óvulos envolve intervenção médica real, com efeitos colaterais, riscos e carga emocional, que devem ser levados a sério no momento do aconselhamento clínico (CEDARS et al., 2020; AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE, 2018).

A ética clínica exige proporcionalidade: é preciso colocar na balança o benefício esperado (uma chance futura de gravidez, que não é garantida) e o ônus físico, emocional e médico imposto à mulher aqui e agora. Informar com clareza sobre esse custo corporal é parte essencial do respeito à mulher e do consentimento verdadeiramente informado (AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE, 2018).

Quando a promessa parece maior do que a evidência científica

Com frequência, o procedimento é divulgado como algo simples e seguro para uma maternidade futura. Mas isso não corresponde fielmente ao que a ciência demonstra. O congelamento de óvulos não garante que uma mulher conseguirá engravidar no futuro, ele oferece apenas uma possibilidade, que varia sobretudo conforme dois fatores: (1) a idade da mulher no momento do congelamento, e (2) a quantidade de óvulos maduros obtidos e criopreservados.

Uma revisão sistemática com meta-análise (Hirsch et al, 2024), publicada a partir de estudos disponíveis no PubMed, que avaliou mulheres que realizaram o congelamento de óvulos de forma eletiva (ou seja, não por motivo médico), mostrou que, considerando todas as idades, a taxa de nascimento com vida por paciente foi de aproximadamente 28%. Além disso, os próprios autores destacam uma grande variação entre os estudos analisados: quando os dados são separados por idade, a diferença se torna ainda mais evidente: mulheres que congelaram os óvulos com 35 anos ou menos apresentaram taxas de nascimento com vida em torno de 52%, enquanto aquelas que realizaram o procedimento a partir dos 40 anos tiveram taxas próximas de 19%.

Um dos problemas éticos surge quando o congelamento de óvulos é apresentado como um “seguro de fertilidade”. Esse tipo de comunicação pode levar mulheres a tomarem decisões com base em expectativas superestimadas, comprometendo o consentimento verdadeiramente informado. A própria American Society for Reproductive Medicine (ASRM, 2018) chama atenção para esse ponto. A entidade afirma que, embora o congelamento eletivo de óvulos possa ser eticamente aceitável, é essencial que as mulheres recebam informações claras sobre as limitações da técnica, as incertezas quanto à eficácia real e os possíveis efeitos de longo prazo.

O silêncio sobre a origem dos embriões

O que raramente é dito: o congelamento de óvulos geralmente é apenas a primeira etapa de um caminho que culmina na fertilização in vitro (FIV). Essa técnica, para gerar um único filho, frequentemente envolve a produção de diversos embriões, muitos dos quais são descartados, congelados ou usados em pesquisas. Cada um desses embriões, no entanto, já é uma nova vida humana, única e irrepetível, com dignidade inviolável desde a concepção.

A instrução Dignitas Personae, da Congregação para a Doutrina da Fé, é clara ao afirmar:

“A crioconservação é incompatível com o respeito devido aos embriões humanos e pressupõe a sua produção in vitro; expõe-nos a graves riscos de morte ou de dano para a sua integridade física, enquanto uma alta percentagem não sobrevive às práticas de congelamento e de descongelamento; priva-os, ao menos temporariamente, do acolhimento e da gestação materna; põe-nos numa situação susceptível de ulteriores ofensas e manipulações”. (DP, 18).

Muitas mulheres, por não receberem formação adequada, desconhecem essa realidade. A cultura do sucesso e da performance não fala da maternidade como vocação. Fala apenas de um suposto controle que você pode ter da sua vida e da sua fertilidade. Isso é uma grande ilusão, pois muitas são as mulheres – aliás, os casais – que adiam a chegada dos filhos, e depois que resolvem tê-los, sofrem uma espera que muitas vezes nunca acaba. Afinal de contas, a técnica não é absoluta, embora muitos tentem fazer com que as pessoas acreditem nisso.

O problema ético: manipular a vida

A vida humana não deve ser gerada em laboratório. A fecundação separada do ato conjugal rompe a união inseparável entre amor e geração, entre doação e fecundidade. A criança deixa de ser fruto do amor e passa a ser um produto de uma técnica: planejado, selecionado, manipulado. Isso não é apenas imoral: é desumano. Todo ser humano tem o direito de nascer do amor de seus pais, ao invés de ser “comprado” em laboratório.

A Humanae Vitae, de São Paulo VI, já denunciava o perigo da mentalidade contraceptiva e da dissociação entre sexualidade e procriação:

“Esta doutrina, muitas vezes exposta pelo Magistério, está fundada sobre a conexão inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e o significado procriador.” (HV 12)

E o Catecismo da Igreja Católica reforça:

“O acto fundador da existência do filho deixa de ser um acto pelo qual duas pessoas se dão uma à outra, e «remete a vida e a identidade do embrião para o poder dos médicos e biólogos.” (CIC 2377)

Ao separar o dom da maternidade do dom da entrega amorosa no matrimônio, a cultura moderna trai a mulher. Ela a convence de que pode ser mãe sozinha, no tempo que quiser, como quiser. E isso, longe de ser libertador, a isola. A mulher, que foi criada para o amor, para o cuidado e para a comunhão, passa a viver em um deserto relacional, conectada com tudo, menos com sua vocação mais profunda.

Feminilidade sufocada: o preço da falsa liberdade

O drama vivido por muitas mulheres hoje tem raízes culturais, médicas e sociais bem documentadas pela ciência. Ao longo das últimas décadas, a mulher foi progressivamente incentivada a tratar a própria fertilidade como um problema a ser controlado, e não como uma dimensão natural da sua saúde e identidade.

Estudos em saúde reprodutiva mostram que o uso prolongado de anticoncepcionais hormonais, frequentemente iniciado ainda na adolescência, passou a ser apresentado como caminho padrão para “organizar a vida” e evitar a gravidez a qualquer custo, mesmo que isso gere efeitos colaterais consideráveis (Skovlund et al., 2016; Zettermark et al., 2018). Nesse contexto, a gravidez deixou de ser vista como um evento fisiológico natural e passou a ser encarada, muitas vezes, como um risco médico maior, ou como um obstáculo social.

Do ponto de vista biológico, porém, a ciência é clara: a fertilidade feminina é limitada no tempo e declina progressivamente com a idade, sobretudo após os 35 anos (te Velde; Pearson, 2002). Quando essa realidade é minimizada no discurso cultural, muitas mulheres acabam descobrindo tardiamente que a tecnologia não consegue compensar plenamente o efeito do tempo sobre os ovários.

Isso explica o crescimento do recurso a técnicas como o congelamento de óvulos e a fertilização in vitro. No entanto, vimos que essas estratégias não oferecem garantia de maternidade, e que as taxas de sucesso diminuem significativamente quando os óvulos são congelados em idades mais avançadas (Hirsch et al., 2024). Ou seja, a promessa de “resolver depois” nem sempre se concretiza na prática.

Paralelamente, pesquisas em psicologia feminina e saúde mental indicam que o desejo de gerar e de maternar não é apenas uma construção social, mas está profundamente ligado à identidade feminina, à biologia e à organização emocional da mulher (Schwerdtfeger; Shreffler, 2009; Fisher et al., 2014), algo que a fé e a religião deixam claro há milênios. Mesmo em mulheres com alto nível educacional e sucesso profissional, o adiamento prolongado da maternidade pode estar associado a arrependimento e sofrimento emocional quando a fertilidade começa a declinar.

Isso ajuda a compreender por que muitas mulheres relatam frustração e sofrimento ao recorrer, mais tarde, a tratamentos reprodutivos. O que frequentemente se apresenta como “liberdade” revela-se, em muitos casos, como um esforço físico e emocional intenso para recuperar algo que foi adiado sob forte pressão cultural. A mulher pode suprimir temporariamente a ovulação com hormônios, mas os estudos mostram que isso não elimina o desejo profundo de maternidade, que tende a reaparecer ao longo da vida (Schmidt et al., 2012).

A ciência contemporânea é capaz de interferir nos ciclos hormonais, postergar a ovulação e auxiliar a reprodução, mas não consegue redefinir a biologia nem apagar dimensões profundas da identidade humana, além de – em muitos casos – criar problemas bioéticos graves. Quando a tecnologia é apresentada como substituta da realidade biológica, e não como auxílio limitado, cria-se uma expectativa que frequentemente termina em sofrimento.

Por isso, cada vez mais pesquisadores defendem que a ciência reprodutiva precisa ser comunicada com ética, honestidade e respeito integral à mulher e à dignidade humana, considerando não apenas o corpo, mas também o impacto psicológico, emocional e existencial das decisões reprodutivas (ASRM, 2018). Se a ciência ignora a mulher real, com seus limites e desejos profundos, ela pode estar deixando de servir, e passando a dominar.

A mídia e a propaganda disfarçada de informação

Grande parte da mídia atua como porta-voz de uma ciência desvinculada da ética. Reportagens que incentivam o congelamento de óvulos dificilmente mencionam os riscos, os custos, os dilemas morais e, principalmente, as taxas de frustração. A mulher é enganada em sua boa fé, empurrada a decisões irreversíveis sem saber que está sendo moldada por uma cultura que chama frustração de liberdade.

Esse tipo de narrativa transforma a mulher em consumidora de soluções biotecnológicas. Mas ela não é uma máquina reprodutora, ela é um santuário da vida! E o amor que ela tem a oferecer e a receber não pode ser limitado a um calendário profissional ou a um protocolo clínico.

O caminho de volta: recuperar a verdade do amor

A solução para esse caos não está apenas em criticar as técnicas, mas em propor um novo caminho. Um caminho de reconciliação com a natureza, com a feminilidade, com o plano de Deus. O corpo feminino não é um inimigo a ser controlado, mas um dom a ser compreendido. E toda mulher é chamada – biologicamente ou espiritualmente – à maternidade como vocação.

Cristo nos disse que a verdade nos liberta (Jo 8,32). Só uma visão integral da pessoa humana, iluminada pela fé e pela razão, pode orientar decisões verdadeiramente humanas. A mulher encontra sentido e realização quando acolhe sua vocação sem medo, reconhecendo que gerar, cuidar e amar são expressões da sua grandeza, não da sua limitação.

Conclusão: ciência com consciência

Não somos contra a ciência! Ao contrário, a ciência é um dom de Deus e é um bem quando está a serviço do homem. Mas quando se desconecta da ética, transforma pessoas em objetos, vidas em estatísticas, e sonhos em frustrações. Precisamos que a bioética sempre reconheça o valor da vida desde o primeiro instante e oriente nossas escolhas à luz do amor e da verdade.

Nesse sentido foi emitida a mensagem  do Santo Padre o Papa Leão XIV aos participantes da III Conferência Internacional de Bioética em Roma, em junho de 2025, em que estivemos presentes: “que a ciência permaneça a serviço da humanidade, nunca se tornando sua mestra”.

É hora de libertar a mulher: não da maternidade, mas das mentiras que a fizeram temê-la. É hora de voltar ao plano original: a mulher criada por Deus para ser fecunda, para amar com o corpo e com a alma, e para conduzir a humanidade com sua doçura firme e generosa.

Ana Derosa

Referências:

ACI DIGITAL. Ciência deve servir à humanidade e não ser sua mestra, diz Leão XIV. 2 jun. 2025. Disponível em: https://www.acidigital.com/noticia/63007/ciencia-deve-servir-a-humanidade-e-nao-ser-sua-mestra-diz-leao-xiv
. Acesso em: 29 dez. 2025.

AMERICAN SOCIETY FOR REPRODUCTIVE MEDICINE. Ethics Committee. Planned oocyte cryopreservation for women seeking to preserve future reproductive potential: an Ethics Committee opinion. Fertility and Sterility, v. 110, n. 6, p. 1022–1028, 2018.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. 2. ed. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1997.

CEDARS, M. I. et al. Planned oocyte cryopreservation: a review of current outcomes and ethical considerations. Journal of Clinical Medicine, v. 9, n. 7, 2020. DOI: 10.3390/jcm9072216.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Dignitas personae: instrução sobre algumas questões de bioética. Vaticano, 2008.

FISHER, J. R. W. et al. Reproductive health, infertility, and psychological distress: a review. Human Reproduction Update, v. 20, n. 1, p. 1–13, 2014.

HIRSCH, A. et al. Planned oocyte cryopreservation: a systematic review and meta-regression analysis. Human Reproduction Update, v. 30, n. 5, p. 558–568, 2024.

HIRSCH, Ayala et al. Planned oocyte cryopreservation: a systematic review and meta-regression analysis. Human Reproduction Update, v. 30, n. 5, p. 558–568, 2024. DOI: 10.1093/humupd/dmae009. PMID: 38654466.

PAULO VI, Papa. Humanae vitae: sobre a regulação da natalidade. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1968.

SCHMIDT, L. et al. Demographic and medical consequences of postponement of parenthood. Human Reproduction Update, v. 18, n. 1, p. 29–43, 2012.

SCHWERDTFEGER, K. L.; SHREFFLER, K. M. Trajectories of women’s fertility desires over the life course. Journal of Women’s Health, v. 18, n. 10, p. 1501–1507, 2009.

SKOVLUND, C. W. et al. Association of hormonal contraception with depression. JAMA Psychiatry, v. 73, n. 11, p. 1154–1162, 2016.

TE VELDE, E. R.; PEARSON, P. L. The variability of female reproductive ageing. Human Reproduction Update, v. 8, n. 2, p. 141–154, 2002.

ZETTERMARK, S. et al. Hormonal contraception and antidepressant use among young women. European Journal of Contraception & Reproductive Health Care, v. 23, n. 1, p. 36–43, 2018.

Rolar para cima